Existe uma antiga lenda sobre a fundação da cidade de Cascavel, no Ceará. Sob o seu solo, viveria uma enorme e diabólica serpente; venenosa cascavel da qual a cidade teria, então, recebido o seu nome; uma nomeação em sua acepção forte: algo que ao mesmo tempo marca e cria o mito de origem, em torno da qual um povoado começa a se enovelar.

Nomeados pela serpente e vivendo sob o jugo do mito, os citadinos construíram uma torre – que mais parece um altíssimo e robusto bastão fincado na terra -, que impediria a grande serpente de sair e de avançar, inclemente, voraz e veraz – sobre a cidade e sobre a sua gente, tão temerosa de sua fúria quanto fervorosamente crente dos poderes de proteção atribuídos à imagem de uma Nossa Senhora do Ó, postada no alto desse pedestal sui generis. A torre fálica, totêmica, na mesma medida em que contém o monstro, faz recordar a todos que ele está lá. Adormecido ou espumando de raiva, não se sabe, mas decerto com ferocidade ímpar, com a força de legiões, com a potência trágica e com a estranha beleza dos malditos.

O bastão constrange a besta, mas, ainda assim, ela encontrou uma forma de derramar a sua peçonha sobre as cidades. Ela encontra o seu veio, pelo qual flui. É possível imaginá-la, percorrendo canais escuros, roçando a sua pele pelas paredes terrosas ou aninhada no buraco no qual foi forçada a estar, com os olhos bem vivos, rutilantes, atenta aos sons e às vibrações do terreno, e aos sons daquilo que por cima da terra, para além da Terra, de algum modo, ela alcança.

Seu rastro é misterioso e sinuoso – como cabe às cobras – e os sulcos que deixa por onde rasteja não marcam o chão da pequena cidade brasileira, posto que referidos a uma outra geografia; seu caminho é o dos giros cerebrais – dos corações e mentes – daqueles que se deixam afetar pelo traço fantástico de Darcílio Lima. O seu tracejado é o dos mistérios cósmicos e das constelações de decifração difícil, mas na mesma medida, e paradoxalmente, a sua arte é pedestre: ela não fala apenas a língua dos anjos – celestes ou decaídos – também fala a língua dos homens, tocando as coisas da carne, da violência e da paixão.

A serpente – e os seus pares – estão por todo lado na obra de Darcílio: há felinos de olhares enigmáticos e sedutores ou francamente ameaçadores, com a sua bocarra aberta e os seus dentes afiados; há aves antropomorfomizadas, enlaçadas a todo tipo de ser incomum; há rabos de peixe, asas e garras e, sempre, as cobras, inteiras ou metamorfoseadas em outras criaturas; às vezes, apenas sugeridas em sua textura escamosa, marca de muitos desenhos e gravuras do artista.

São seres que se mostram terríveis, selvagemente andróginos, atravessados por dores excruciantes e, talvez por isso, igualmente dispostos à imposição da dor. Eles se entredevoram, copulam, interpenetram-se, mastigam-se orgasticamente. Há ventres intumescidos de gravidezes múltiplas, mamas de mamilos salientes, vaginas e pênis que recebem e penetram, línguas insinuantes e sedentas. Não são seres passivos: há muito movimento.

E sobre cada um desses seres que compõem um bestiário fabuloso há, tal como vestes profanas, outros seres, às vezes pequeníssimos, tal qual alucinações liliputianas, que se relacionam eroticamente. Há, também, outras camadas sobre esses corpos: são como tecidos de padronagens variadas – como havíamos dito, talvez escamas de serpente – que Darcílio realiza obsessivamente e com grande apuro técnico.

De onde virão os seres dessa “fauna darciliana”?

Há certamente fortes motivações inconscientes na repetição de certos temas em Darcílio, mas ao contrário do artista comum – no sentido específico de alguém que cria, por assim dizer, tendo como apoio o solo mínimo de estabilidade que a neurose supõe, em contraponto à estrutura psicótica – ele é compelido a retecer a fina matéria de um mundo em que possa viver.

Como apreciar em toda a sua magnitude, a experiência estética que Darcílio Lima deixa com a sua obra? Talvez, aproximando-se com suavidade de cada um de seus trabalhos e, como quem cola o ouvido na terra, escutar o sibilo e o chacoalhar da grande cascavel em seu labirinto.

POR GUILHERME GUTMAN – CURADOR DA EXPOSIÇÃO DARCÍLIO LIMA UM UNIVERSO FANTÁSTICO.

 

Guilherme Gutman cursou medicina na Universidade Federal Fluminense, fez residência médica em psiquiatria, quando iniciou sua formação em psicanálise. Fez mestrado e doutorado no Instituto de Medicina Social/Uerj. Trabalhou em muitas instituições psiquiátricas, onde pôde aprofundar a sua compreensão das relações entre arte e loucura. É professor adjunto do Departamento de Psicologia da PUC-Rio, psicanalista e autor de vários artigos e capítulos de livros. Nasceu, vive e trabalha no Rio de Janeiro.

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