Conta a lenda que muito antigamente, muito antigamente mesmo, lá numa serra distante vivia uma formosa jovem índia com sua tribo.

Era a mais bela entre todas e muito desejada por todos os índios, mas, eis que seu coração pertencia a um jovem guerreiro valente e corajoso. O nobre guerreiro também não queria saber de outra moça que não fosse ela. Juntos passavam horas admirando o horizonte, ou contando as estrelas à noite, e o que são estrelas senão indiozinhos, ou ainda cantando o amor que os unia admirando a Lua.

Era tão grande o amor entre eles que acabou despertando a inveja de Boiaçu, um gênio do mal que tinha a forma de uma grande cobra.

Decidido a acabar com o amor entre os jovens, Boiaçu, tomando a forma de um velho pajé, avisou ao cacique da tribo da moça que seus velhos inimigos, uma tribo distante, preparavam-se para ataca-los. Na outra tribo, Boiaçu comunicou ao seu cacique que eram os índios da serra que preparavam guerra contra eles. Assim, plantou inimizade entre as tribos.

Todos os guerreiros da tribo desceram a serra para irem à guerra. A jovem moça ficou à entrada da aldeia esperando o retorno de seu amado. E muitas luas se passaram sem que ninguém voltasse.

Boiaçu, vendo que o jovem lutava muito bem e que não era possível vencê-lo em combate, tomando a forma de uma cobra venenosa, picou o jovem enquanto dormia e o moço logo morreu.

Na aldeia, a linda índia esperava ansiosamente o retorno de seu amado e quando viu os índios, ainda longe, subirem a serra, voltando da guerra, correu para se encontrar com seu amor. Mas entre os índios o jovem guerreiro já não estava e foi difícil lhe explicar que ele já não retornaria a seus braços.

A jovem correu para a floresta onde chorou sua tristeza por muitas luas. Foi tão grande seu pranto que de suas lágrimas nasceu o Rio Choró e era tão infinita sua tristeza que a jovem definhava dia após dia. Tomada de compaixão pela moça, a Lua, que fora testemunha de seu amor, transformou a jovem em um belo pássaro, o choró, que quer dizer murmúrio ou lamento, para que pudesse voar e esquecer sua tristeza.

Até hoje é possível ouvir o canto choroso do pássaro às margens do rio e, quando há cheias no Rio Choró, é a moça transformada em pássaro chorando a dor da perda de seu grande amor.

Milson Almeida. O Rio Choró. In: A Serra da Mataquiri, o Rio Malcozinhado e Outras Histórias. Fortaleza: Premius, 2013, p. 44-45.

Ilustração: Wescley Barros Borges

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