A vida é uma oportunidade de escolhas infinitas, como as conexões nervosas, impossível de mensurar. Outro dia estava a observar quatro crianças a interagir em torno de um brinquedo. Era uma tampa de garrafa pet e um palito de picolé. Simulavam um jogo de futebol. O narrador exercitava sua eloquência, o jogador se movimentava para bater o pênalti, enquanto o goleiro se posicionava embaixo e ao centro da trave. A torcida gritava – vai perder, vai perder, vai perder. Gooooollllllllllllllllllllllll.

Mas afinal, o que tem a ver uma tampa de garrafa pet, um palito de picolé e o futebol? Talvez para algumas pessoas não tenha nada a ver, contudo aquelas quatro crianças transformaram esses elementos em um momento especial, apenas ao exercitar a imaginação. Torna-se cada vez mais raro encontrar espaços onde crianças brincam, trocam experiências, exercitam sua criatividade produtivamente, sem o peso da insegurança vivida pelos pais e depositada sobre os filhos.

Atualmente é mais comum o isolamento social e o encarceramento virtual. Nos canais da TV aberta chove sangue e apelos sexuais; nos canais da TV fechada uma enchente de propagandas de brinquedos, jogos e bonecos superpoderosos; nas redes sociais um mar de informações duvidosas; mas quem é responsável por selecionar o que é mais saudável para as crianças?

Apesar de serem recorrentes comentários preconceituosos do tipo “Psicólogo é para doido”, “se é para brincar, meu filho brinca em casa”, “psicologia é o meu cinturão”; a Psicologia é uma ciência em contínua evolução que abrange o ser humano em sua totalidade, pois está presente em todos os momentos da vida das pessoas: afetividade, cognição, comportamento, socialização, motricidade, por exemplo.

Nesse contexto dinâmico de vida, as crianças estão aprendendo a todo o momento e em todos os lugares indiscriminadamente, a partir daí manifestam-se muitos comportamentos. Aqueles considerados negativos pelos adultos muitas vezes são mais valorizados que os considerados positivos, com isso a frequência de ocorrência dos primeiros aumenta, em meio a uma formatação social que os aproxima cada vez mais de seres autômatos e estereotipados. Nessas condições, o adoecimento é certo: ansiedade, estresse, depressão, pânico, compulsão, hiperatividade, agressividade e tantas outras consequências, geralmente iniciadas nas relações interpessoais e nos modelos de comunicação ambíguos apreendidos no meio.

E agora, o que fazer? É possível mudar essa situação?

Muitas vezes a solução do problema está na origem do problema, costuma-se dizer que quem está no centro do problema não tem tempo para pensar na solução. É preciso escarafunchar a história de vida e, pouco a pouco, compreender o que está por trás de um comportamento, de um déficit cognitivo, de uma dificuldade de aprendizagem, seja com o uso de técnicas ou de instrumentos psicológicos, particulares a cada caso. Entendemos o quanto é difícil para uma mãe ou pai reconhecer que o(a) filho(a) precisa de ajuda, este já é uma sinal de que não é só a criança que precisa de ajuda, principalmente porque, em todos os casos que tenho atendido, há um adoecimento familiar latente, sendo a criança, aparentemente o ser mais frágil da família, o porta voz dos conflitos existentes.

Talvez não seja possível mudar o passado, mas é totalmente possível escrever, mesmo por linhas tortas, uma história diferente, considerando o palco, o cenário, os demais personagens e o contexto onde se vive a experiência real de forma mais saudável e feliz. Como você quer que a sua vida e a vida de seu filho(a) seja? A decisão é agora!

 

Por Kenedy Silva Torres

Mestre em Psicologia Social – Universidade de São Paulo

Especialista em Psicologia Política, Políticas Públicas e Movimentos Sociais – USP

Especialista em Gestão de RH e Psicologia Organizacional – Universidade Metodista de São Paulo

Graduado em Psicologia – Universidade Cruzeiro do Sul

Psicólogo Clínico da Prefeitura de Cascavel

Psicólogo Escolar do Colégio Cascavelense e do Centro Educacional Juvenal de Carvalho

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