Certa vez, saindo da Igreja Matriz de Cascavel (aquela mesma igreja em que segundo a lenda habita sob o piso uma imensa cobra), logo após a tradicional Missa que sempre acontece às sete horas da noite de domingo, encontrei um amigo e, como era de seu costume contar histórias, fui ter com ele. Conversa vai, conversa vem, não demorei muito e lhe perguntei se acaso sabia de algum conto e ele sem titubear foi logo me contando a lenda da Serra da Mataquiri.

Existe, no Cascavel, uma região muito bonita, onde há um monte muito alto. Antigamente era habitado por índios que viviam em conformidade com a beleza daquele lugar. Em uma dessas tribos, vivia um curumim de nome Quiri e toda a sua família. Como era de costume dos índios caçar somente o necessário para a sua alimentação, o pai ordenou ao pequeno Quiri e a seu irmão mais velho, um jovenzinho, que fossem caçar alimento para aquele dia e recomendou ao mais velho que ensinasse ao pequeno curumim lições de caça. E assim, eles saíram juntos para a primeira caçada de Quiri.

O irmão de Quiri lhe mostrava como manusear o arco, a flecha e a lança. Principalmente A lança com a qual deveria, com pontaria certeira, pescar quebrando a calmaria dos espelhos d’água nos remansos dos rios daquele lugar onde viviam. Entraram em uma canoa e subiram o Rio Malcozinhado. Tão grande era naquela época que era difícil atravessá-lo em tempo de cheias, mas naquele dia ele estava calmo e seguia tranquilamente seu rumo. Navegaram por algum tempo e desceram do outro lado do rio. Desse ponto se puseram a caminho do grande monte. Pouco tempo depois já estavam cortando a mata e subindo por ele.

Ao chegarem lá no alto não foi difícil encontrar a primeira caça, um peba, espécie de tatu, andando entre as folhagens secas do chão. O jovenzinho com total habilidade mostrou a Quiri uma boa pontaria acertando o animal com uma flecha. Não demorou muito e o próprio indiozinho avistou um jacu, ave do mato parecida com um frango. Porém, o que mal sabia Quiri era que seu irmão estava mudo, em choque, com medo de um animal que os observava.

Ali bem próximo, uma grande onça os espreitava sorrateiramente entre os arbustos. O curumim acompanha o olhar de seu irmão e também percebe o felino. O jovenzinho, despertando em si, vê que Quiri tinha nas mãos o arco e flecha e não hesita em gritar:

– Mata Quiri! Mata Quiri! Mata Quiri!

E o indiozinho, sem medo e corajosamente, lança a flecha firme para obedecer a seu irmão mais velho. Mas, a flecha, apesar de passar bem perto da onça, não chegou a atingi-la e o animal saiu correndo em disparada mata adentro fugindo do pequeno guerreiro.

De volta à aldeia, à noite, ao redor da fogueira, sob a luz da Lua, o pai dos garotos explica para eles que a onça só ataca quando se sente ameaçada. Importante lição para não acertar animais sem necessidade!

Hoje esse monte se chama Serra da Mataquiri. Provando que, apesar de tão pequeno, o curumim era muito valente e corajoso, por isso sua bravura permanece até hoje lembrada.

Aírton Dias. A Serra da Mataquiri. In: A Serra da Mataquiri, o Rio Malcozinhado e Outras Histórias. Fortaleza: Premius, 2013, p. 49-50.

Ilustração: Wescley Barros Borges

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